Publicado em comentário literário

POEMA EM LINHA RETA – FERNANDO PESSOA

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das 
etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Escrito por Fernando Pessoa, entre 1913 a 1935, foi publicado pelo seu heterônimo Alvaro de Campos; para os que não sabem, são a mesma incrível pessoa. As linhas do poema servem de crítica a sociedade de aparência férrea da época, Alvaro demonstra sua imperfeição gritante ante o perfeccionismo humano falsamente retratado durante esses anos.

O conceito moderno de fracasso, cria mecanismos de segregação que consideram fracasso tudo aquilo que foge do padrão. Lembrando que na raça humana não existe um padrão real, então como poderia alguém alcançar o sucesso dentro de perspectivas irreais? não poderia. A partir daqui, entramos na dicotomia pós-moderna de sucesso/fracasso; entra-se na discussão dos motivos que levaram a essa busca/maquiagem de perfeição extrema da sociedade.
Segundo Nietzsche oque aprendemos hoje nas escolas é um conhecimento focado na economia de mercado, não no desenvolvimento humano. Em suas palavras:
“A moral que esta aqui em vigor exige uma cultura rápida para que alguém pudesse rapidamente se tornar um ser que ganha dinheiro” Nietzsche A partir do momento que aceitamos nos transformar em maquinas monetárias, assumimos o curso desse paralelo que hoje tem evidenciado a não aceitação pessoal, a depressão latente, a falta de respeito com o outro. Sem bônus visível, o ônus desse caminho transpassa do controle que a sociedade almejava ter, planilhas e tabelas podem até garantir produtividade e rendimento financeiro; mas visivelmente não vem acompanhado de felicidade.

Poema incrível e reflexão ímpar, Álvares de Campos realmente sabia observar e transpassar a realidade por trás das mascaras de perfeição, que eram usadas e ainda hoje o são. Deixo aqui meu alerta para as máscaras usadas nas mídias sociais, a felicidade não pode ser capturada, sob enhum aspecto, ENTÃO, esqueçam os celulares e as fotos constantes e vivam o sentimento real. O mais importante, não se compare; não tem sob a terra alguém igual ou melhor que você.

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